domingo, 24 de janeiro de 2010

Nem tudo é mil maravilhas quando o seu filhote nasce

O puerpério (período que se inicia logo após o nascimento do bebê) é um momento de vida marcado por mudanças significativas de humor para a maioria das mamães. A maior parcela delas tem aquilo que se chama de "blues puerperal", mas algumas podem desenvolver um problema mais sério de saúde que é a depressão puerperal.


Foto de Eduardo Michelini
Nossa sociedade costuma pintar um quadro nada real do que é ser mãe de recém-nascido. Defende-se que tudo é maravilhoso, que você já se sente plena e completa assim que vê o seu bebê na sala de parto. Que o amor é imediato e a primeira vista. E a grande verdade é que para a maioria das mulheres não é assim. O puerpério imediato costuma ser marcado por muitas inseguranças, um senso de responsabilidade enorme por aquele ser pequeno e frágil que nasceu e por muito, mas muito cansaço. Noites mal dormidas são a regra, seios doloridos com a descida do leite, mamilos rachados e a dor do parto (na região da episiotomia ou da cesárea) são todos comemorativos do puerpério que poucos comentam com sinceridade nas rodinhas sociais. Talvez se não fantasiássemos tanto, como sociedade, o que é o puerpério, tantas mães não se surpreenderiam de forma tão intensa com as dificuldades (tão freqüentes e comuns) deste período.

Desta forma, uma conjunção de fatores biológicos (como as alterações hormonais, fatores genéticos, etc), físicos (cansaço, esgotamento, etc) e psicológicos (a maternidade, etc) interagem no puerpério de forma a predispor a mulher a algumas alterações de humor que são, essencialmente, de três tipos: (1) blues puerperal, (2) depressão puerperal e (3) psicose puerperal.

O blues puerperal (do inglês baby blues ou maternity blues) não é considerado uma doença, já que ocorre em cerca de 50 a 80% das puérperas e também não é caracaterizado por sintomas mais graves e não traz limitações para a mulher no seu dia a dia. Esta condição é caracterizada por choro, irritabilidade, mudanças rápidas de humor e até mesmo episódios de euforia, aparecendo em geral a partir do terceiro dia após o parto. Ele é tratado reassegurando-se a mamãe de que estes sintomas ocorrem na grande maioria das mulheres e que eles geralmente melhoram espontaneamente em uma semana a 10 dias. Em alguns casos menos comuns o blues puerperal pode evoluir para um transtorno pós-parto mais grave, como uma depressão pós-parto. No entanto esta é a exceção e não a regra.

Já a depressão pós-parto é uma condição que exige acompanhamento profissional e tratamento. Ela ocorre em cerca de 10 a 15% das mamães de primeira viagem e começa insidiosamente após a segunda a terceira semana após o parto e pode evoluir com piora da sintomatologia até meses subseqüentes. Duas características comum da depressão pós-parto são as múltiplas queixas físicas e a fadiga excessiva da mãe Outros sintomas presentes são a insônia, a anorexia, hipersonolência, tristeza extrema, sintomas ansiosos ou até mesmo ideação suicida. A mãe também pode referir se sentir completamente incapaz de cuidar de seu bebê. Episódios de depressão pós-parto devem ser tratados de forma incisiva, associando-se psicoterapia e medicação, já que quadros não tratados podem se tornar graves, freqüentes ou até mesmo não responsivos a tratamento futuro, com a mulher evoluindo para um quadro crônico e refratário de depressão.

Por fim, o quadro felizmente menos comum é a psicose pós-parto, que costuma acometer cerca de 0,2% das mães de primeira viagem. O quadro em geral se inicia entre o terceiro e o 14o. dia após o parto e começa com insônia, confusão mental, comportamento bizarro e evolui para alucinações e delírios transitórios. O quadro é altamente instável e muda o tempo todo, podendo aparecer quadros de aceleração e agitação extrema, seguidos por períodos de depressão profunda que dura vários dias ou semanas. A psicose pós-parto é extremamente grave, já que 4% das mulheres acomentidas acabam cometendo infanticídio (matam o bebê). Assim sendo, é de extrema importância que este quadro seja prontamente reconhecido e tratado, pelas potenciais conseqüências devastadoras que o seu não tratamento pode ter para o bebê, para a mãe, a família e a sociedade. O seu tratamento é feito com a imediata hospitalização da mãe (o que visa prevenir infanticídio e suicídio materno) associada ao uso de medicações e intervenções psicoterápicas. A orientação e apoio profissional à família também são de extrema importância.

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Fontes: (1) Parry BL. Postpartum psychiatric syndromes. In: Comprehensive Textbook of Psychiatry/VI. Editors: Kaplan HI and Sadock BJ. 6th ed. volume 1. pag. 1059-66, 1995, Willians and Wilkins.; (2) Callahen TL, Caughey AB ann Heffner LJ. Postpartum care and complications. Blueprints in Obstetrics, Blackwell Science, 1998


Foto: foto de Eduardo Michelini (clique aqui para acessar o site do fotógrafo)

Um comentário:

ariane disse...

Tati, achei perfeito quando você diz:"...que poucos comentam com sinceridade nas rodinhas sociais." Senti essa falta de sinceridade na pele, fantasiei com a maternidade diante do que era falado e visto, e na hora "H" tudo era muito diferente.
Só depois que a tormenta passa que as pessoas comentam que também estiveram em situação semelhante, e aí pude perceber que eu era 'normal', mas até essa tormenta passar muitas lágrimas cairam.
Poxa, o que há de errado em falar a verdade? Se isso é tão comum assim, penso que muito sofrimento poderia ser evitado se simplesmente tratássemos o assunto com sinceridade.
Bjs
Ariane